O que os índios tem a ver com o Yôga (ou vice-versa)

Desde que comecei a praticar o Método DeRose, em 2003, eu ouço dizer que atualmente não adianta nada ir à Índia atrás do verdadeiro Yôga. Às vezes precisamos ouvir a mesma coisa varias vezes até conseguir absorver profundamente o significado. Ontem, pela primeira vez, essa afirmação do Professor DeRose fez completo sentido para mim. O que mudou não foi a forma como ele explicou, mas a minha experiência de vida.

Obviamente eu nunca deixei de acreditar quando os professores do Método falavam desta dificuldade encontrada em suas viagens. Afinal eles vão regularmente à Índia há mais de 20 anos, fazendo um trabalho quase arqueológico de resgate do Yôga antigo, pré-clássico. Ao mesmo tempo, é difícil imaginar como um povo pode ter perdido tanto de sua cultura enquanto nós, aqui do ocidente, estamos tão sedentos para resgatá-la.

Depois de tantas invasões, pouco restou da filosofia original surgida há mais de cinco mil anos no vale do Indo, na região que hoje é o Paquistão. O que se tem agora são “ashrams” sintonizados com as demandas de turistas ocidentais, literalmente Yôga para inglês ver. Você vai para lá buscando as raízes da filosofia e volta mais perdido do que foi, tamanha a confusão instaurada no pais.

Ok, mas o que isso tem a ver com esse blog a respeito da minha pesquisa sobre a inclusão digital indígena? Tem que foi justamente a minha viagem para a Cabeça do Cachorro que me vez realizar o quão profunda pode ser a perda cultural de um povo. Vamos falar a verdade, nós brasileiros adoramos falar sobre índios, mas não temos a menor ideia de quem eles são, como eles são e como eles vivem. Eu vou falar para vocês dos índios que eu conheci.

Os índios que eu conheci são evangélicos em sua maioria, alguns são católicos e estes vivem brigando com aqueles (conhecem essa historia?). Eles tomam banho de roupa (confesso que essa foi a parte que mais me chocou), adoram a música da bicicletinha e Calypso. Seus sonhos de consumo são um teto de zinco e uma antena parabólica (pois a TV e aparelho DVD, eles já tem, alimentados geralmente por gerador à diesel ou por energia solar).

Os índios que eu conheci adotaram como etnia uma que historicamente não existia, mas foi inventada por antropólogos, reagrupando povos que falavam mais ou menos a mesma língua. Mais ou menos, porque da mesma forma que não dá pra dizer que o português falado no Brasil é o mesmo falado em Portugal ou em Cabo Verde ou mesmo na Índia (sim, uma parte da Índia foi colonizada pelos portugueses e fala a língua lusitana), não dá para dizer que o Baniwa falado por povos ocupando diferentes regiões do rio é o mesmo, principalmente por ser uma língua sem tradição escrita.

Falando em escrita, a que eles estão adotando (pelo menos perante aos brancos) foi sistematizada por um FRANCÊS que escreveu um dicionário Baniwa-Português. Muitos dos índios que eu conheci dizem com orgulho que falam uma língua indígena chamada Nheengatú, agora idioma co-oficial no Município de São Gabriel da Cachoeira, uma grande conquista do movimento indígena. Só que eles esqueceram que o Nheengatú foi uma língua franca imposta pelos missionários a partir do século XVII para facilitar a comunicação na torre de babel que é a região e, consequentemente, a cristianização. O Nheengatú foi criado a partir do Tupi-Guarani e também é conhecido como Língua Geral ou simplesmente Geral. Literalmente, Nheengatú significa “Língua Bonita”, para convencer as pessoas a adotá-la.

Eu poderia escrever mil parágrafos sobre os índios que eu conheci. De como todo dia no almoço eles comem arroz, macarrão e feijão com charque e adoram quando tem suco Tang para a merenda. De como eles continuam tendo doenças tradicionais, mas não possuem mais pajés ou benzedores para curá-las pois isso é coisa do demônio. Porém esse texto ficaria muito longo. Acho que já da para ter uma ideia da situação atual dos índios do noroeste brasileiro.

Exatamente uma semana depois da minha volta desta incrível aventura em meio àqueles de que nos adoramos dizer que somos todos descendentes, eu sou presenteada com a presença do Professor DeRose em Brasília. Ele nunca me deixa esquecer como as coisas que eu aprendo nos outros setores da minha vida sempre tem à ver com o que estudamos na nossa filosofia. Ontem eu participei do curso Estrutura do Método DeRose, ministrado por ele. Já assisti essa aula diversas vezes, mas a cada vez é como se eu enxergasse novas camadas, alcançasse um conhecimento que, para mim, simplesmente não estava ali antes. De vez em quando eu sinto passar por um break point, e esse da perda do Yôga original foi um deles.

Para terminar uma pequena anedota que eu escutei da minha querida Lia, que trabalha lá em casa. Segundo ela, o meu tio, ou um amigo dele, foi visitar uma tribo indígena nas férias e levou espelhinhos e pentezinhos para fazer um agrado aquelas pessoas primitivas, achando que ainda estava no tempo de Colombo. Chegando lá, os índios apontaram para o pé dele: “A gente quer é esse Nike aí.” Quem preferir o espelhinho atire a primeira pedra.

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Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
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2 respostas para O que os índios tem a ver com o Yôga (ou vice-versa)

  1. giblanco disse:

    Que louco, né Isis. A gente fica aqui tão longe e somos bombardeados por estereótipos. Ainda bem que tem gente que se aventura a ir atrás de um pouco de realidade, como você! Beijos e sucesso aí!

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