À deriva no Rio Içana

Depois de toda a confusão contada no post anterior, Trying to Go Downstream, finalmente saímos da Escola Baniwa Coripaco Pamaali quase umas 6h da manhã do sábado, dia 28 de maio. A previsão era de que chegássemos à São Gabriel da Cachoeira às 16h. Tudo ia bem: barco com cobertura, motorzão 90 HP, parada para almoçar uma comidinha quentinha na comunidade Assunção do Içana, jambos colhidos do pé para sobremesa… Até que de repente o barco para no meio do Rio Içana!

Foi logo depois de termos saído de Assunção do Içana de pança cheia e com nossos jambos. Eu já estava deitada dormindo (tudo o que eu fiz durante a viagem depois de ter dormido apenas umas 2h na noite anterior), quando senti o barco parando. Senti o barco reduzindo a velocidade, mas eu estava com tanto sono, que nem dei aquela levantadinha de cabeça para ver onde estávamos parando. Mas fiquei de ouvidos abertos, pois o meu lugar de deitar era bem na passagem para todos descerem do bote.

Barco da FUNAI

Isis, ainda meio dormindo, de pijama, descendo do barco da FUNAI, para almoçar na comunidade Assunção do Içana.

So que ninguém ia descer ali, estávamos no meio do rio e entrou diesel no motor, motor este movido à gasolina! As voadeiras, bongos, botes e afins não têm reservatório de combustível, a gente carrega os carotes de gasolina no final do barco, como vocês podem ver na foto e vai ligando um por um à medida que eles vão acabando ao motor com uma mangueira. Pois é… o pessoal do barco emprestou um carote desses para alguém la em Assunção do Içana e na hora que o engraçadinho foi devolver o empréstimo, deu foi diesel, que é mais barato!

Então estávamos la, no meio do rio Içana, com diesel num motor movido a gasolina. Tinha que limpar para o bicho voltar a funcionar com gasolina, e com a palhaçada, a gente não teria o suficiente para chegar à cidade. Ta bom ou quer mais? Aí vai: não choveu a manhã inteira, mas naquela hora, que precisávamos limpar o motor, vinha uma chuva se aproximando! Ou seja, fecha o motor para não molhar e espera a chuva passar… Ainda bem que a gente tinha cobertura!

Ficamos lá, uma hora e meia à deriva no rio Içana. O barco da FOIRN (Federação das Organizações do Rio Negro), que tinha saído junto com a gente da EIBC, mas tinha um motor menos potente, passou pela gente e ainda parou para “prestar socorro”. Porém não havia nada que eles pudessem fazer por nós, a gasolina deles estava contada. Então tchau e boa sorte aí.

A chuva passou, o camarada da FUNAI voltou a mexer no motor e deixou cair um parafuso num lugar que ele não conseguia pegar. Vários minuto se passaram até a lixa de unha de metal da outra funcionaria da Fundação nos salvar. Foi com ela que o cara conseguiu recuperar o parafuso e fechar de volta o motor. Mas mesmo assim, não tínhamos gasolina. Enquanto isso o barco ia descendo o rio, levado pela correnteza. Pelo menos a nossa intenção era mesmo descer, não estávamos voltando. “Nesse ritmo, chegamos em São Gabriel da Cachoeira amanhã de noite.” Que boa notícia!

Um tempo depois aparece um indiozinho num bongo (barco de madeira com motor) com uma canoinha atravessada em cima. Provavelmente estava indo pescar, ia com o motor até o local e la pulava para a canoa. “Ou! Da uma rebocada ai até a comunidade mais próxima!” “Rebocar, eu não reboco não, mas eu deixo o bongo com vocês e vou-me embora na minha canoa!” Felizmente tínhamos com a gente alguém que sabia pilotar o bongo. O professor Tukano de Português pulou para a outra embarcação, amarrou-a com uma corrente no barco da FUNAI e la fomos nos devagarzinho para a comunidade Camarão.

Em terra firme, eles terminaram de limpar o motor sem o risco de perder nenhuma peça no rio e arrumaram gasolina suficiente para chegarmos à cidade. Retomamos viagem e às 18h estávamos no porto de São Gabriel da Cachoeira. So duas horas de atraso, ta bom, né?

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Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
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Uma resposta para À deriva no Rio Içana

  1. Edu Élleres disse:

    Aventuras, aventuras…

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