Trying to go downstream

Já estou em Brasília e nem contei para vocês que tentar descer os Rios Içana e Negro de volta para São Gabriel da Cachoeira depois de um mês na escola Indígena Baniwa Coripaco Pamaali, quase lá na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, foi quase tão complicado quanto tentar subi-los. A assessora pedagógica da escola, uma pedagoga (graças a Deus não é antropóloga!) que trabalha no Instituto Socioambiental (ISA) chegou na escola terça-feira, dia 24 de maio, com a ótima noticia que já tinha esquematizado a minha descida e a de uma antropóloga que estava la pesquisando manejo ambiental. O pessoal da FUNAI, que chegaria na escola no dia seguinte e voltaria para a cidade no sábado de manhã, nos daria uma carona.

Voadeira

Voadeira com motor 20 HP que usamos para subbir o rio para a EIBC Pamaali.

Chuva no rio içana

Tentando nos proteger da chuva na voadeira durante a subida para a IEBC Pamaali.

Essa carona prometia: super barco da FUNAI com cobertura e motor 90 HP. Chegaríamos em São Gabriel no mesmo dia. Coisa linda de Deus para quem demorou dois dias e uma manhã para subir o rio até a escola numa voadeira sem cobertura com um motor 20 HP. Pense no solel na sua cara o tempo todo e a chuva que vem direto em você enquanto você tenta se proteger embaixo da lona…

Na quarta-feira o pessoal da FUNAI chegou para a assembléia de 10 anos de EIBC, confirmou a carona e a previsão era das melhores: sair da escola no sábado às 5h da manhã e chegar em São Gabriel às 16h! Perfeito para o meu plano de chegar na cidade, jogar minhas coisas na pousada e ir direto para um salão de beleza.

Na quinta-feira a coisa já mudou de figura. Tinham mais pesoas de carona nesse bote da FUNAI e uma delas perdeu a dentadura enquanto tomava banho no rio. A mulher ficou sem os dentes da frente e louca para ir embora! Iríamos na sexta, no final da tarde, dormiríamos em alguma comunidade pelo caminho e partiríamos bem cedinho de madrugada para estar em São Gabriel pela hora do almoço.

A antropóloga não gostou de perder a festa de encerramento que aconteceria na sexta à noite, mas a assessora do ISA garantiu que a gente não perderia nada, pois os Baniwa são evangélicos e evangélicos não podem fazer festa de arromba. Eu achei meio sem lógica sair um dia antes para dormir em algum lugar e chegar na cidade apenas algumas horas antes do previsto inicialmente. A desdentada não ficaria desfilando na escola, mas ficaria na comunidade que a gente dormiria, que diferença faz? E chegando em SG no sábado, independente da hora, não é o melhor dia para se conseguir uma dentadura.

Ficou decidido então que a gente iria embora na sexta na hora do almoço. A estratégia era a seguinte: esperar o secretário da educação aparecer no seu hidroavião, marcar presença, e assim que ele entrasse de volta na sua aeronave, a gente pegaria o barco. Seria perfeito se na sexta de manhã o secretário tivesse resolvido aparecer. Botaram a culpa em quem faz a escala de vôos, mas eu não sei não. O secretário teria chegado para embarcar e o voo estava agendado para o dia seguinte. Ou seja, ele só viria a escola no sábado e não, a gente não ia ficar esperando para marcar presença, afinal, oficialmente, a assembléia terminava na sexta, ninguém era obrigado a estar lá no sábado ainda.

Nas semanas anteriores, durante a preparação da Assembléia, surgiu um boato de que quem viria à escola de hidroavião e tudo era o governador do Amazonas. Dá para imaginar o alvoroço que foi quando essa notícia se espalhou entre os alunos! Tudo que já estava sendo feito cuidadosamente teve o capricho redobrado. No sábado, descendo o rio, a gente não viu nenhum avião passando e o pessoal da comunidade de Assunção do Içana (que normalmente é rota do voo) também disse que não viu nada. Na semana seguinte em São Gabriel, eu encontrei o Coordenador da escola e perguntei se o avião tinha finalmente chegado escola ou não. Ele disse que sim, mas não com o secretário de Educação. Vieram outros dois: um que eu nem lembro qual é e o secretario de MINERAÇÃO! (Sou eu ou tem algo estranho nisso?)

Anyway, O hidroavião não apareceu na sexta de manhã e a assessora do ISA convenceu o camarada da FUNAI a ficar para a festa, pois ele seria homenageado. Então nós ficamos. A FUNAI foi homenageada por ter ajudado na implementação da escola e começou a cair um pé d’água que nos manteve presos na festa até umas 2h da manhã. Quando a chuva deu uma trégua, eu, a assessora e a antropóloga voltamos correndo para a nossa casinha para dormir as poucas horas que nos restavam.

O gerador ficou ligado para festa e o mais legal é que quando o gerador é colocado para funcionar, todas as luzes da escola se acendem, pois não existem interruptores. Eu e a antropóloga tínhamos umas 2h para dormir para sair de madrugada no dia seguinte e aquela luz ligada na nossa cara (so much for sustainable development – sim o gerador é a diesel). Eu não conversei, subi lá nos negócios e desenrosquei a lâmpada! Duas horas de sono depois, eu e a antropóloga acordamos para não perder a nossa preciosa carona. Às 5h30 nós estávamos deixando a EIBC Pamaali depois de um mês vivendo com os índios (três semanas para a antropóloga).

Ah! E a festa ainda estava comendo solta. So much for evangelism…

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Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
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Uma resposta para Trying to go downstream

  1. Edu Élleres disse:

    Evangelismo em horário comercial… ^^

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