Mais aula de Português para alunos e professores da EIBC Pamaali

Quando eu digo que não consigo manter o meu bico fechado (ver o post anterior) é porque eu sou realmente incapaz de fazê-lo. Adivinha qual foi a outra sugestão que eu coloquei no meu relatório da Oficina de Comunicação que eu fiz aqui na EIBC? Acertou quem disse mais aula de Português!

Na estrutura de relatório que o professor Thiago Pacheco me passou, tem um item de “avaliação do aprendizado dos alunos”. Como eu não apliquei prova, a maneira de saber se eles estavam apreendendo o conteúdo era a participação nas aulas e a execução dos trabalhos em grupo. Isso pra mim é um termômetro continuo do aprendizado dos alunos e mais útil do que uma prova no final dos cinco dias. O meu objetivo era que eles refletissem.

Eu estruturei o curso de forma que sem a participação dos estudantes, ele não andaria. Por exemplo, em vez de já chegar dizendo que o Lead Jornalístico tem que responder às perguntas O que? Quem? Quando? Onde? Como? e Por quê?, eu pedi para eles me contarem algo que aconteceu na escola no dia anterior. Eles me disseram: “Uma aluna ficou doente.” e eu fiquei instigando todo mundo a pedir mais informações sobre o fato, pois “Uma aluna ficou doente.” era muito vago. Eles começaram a se perguntar Que aluna? Doente de quê? Por quê?

Dessa discussão chegamos à sentença “Nesta quarta-feira, dia 11 de maio, às 21 horas, a aluna Verônica Paiva, de Juivitera, adoeceu na Escola Pamáali, apresentando dor de estômago causada por ataque de Yoopinai.”. Após eles terem visto por eles mesmos a importância de cada informação aí contida, eu expliquei o Lead Jornalístico e eles entenderam rapidinho. Em seguida, fizemos o exercício inverso, nos definimos os O que? Quem? Quando? Onde? Como? e Por quê? e depois escrevemos um parágrafo com essas informações. O assunto escolhido por eles foi a própria oficina (to podeeeendo!).

O próximo exercício foi em dupla. Eu distribuí os exemplares do caderno “Bem Viver” do Jornal A Critica de Manaus e atribui uma notinha para cada grupo para eles encontrarem os elementos estudados. Eu e o dicionário os ajudamos com o vocabulário e, de modo geral, deu para perceber que o conteúdo foi bem apreendido pela maior parte deles. Apenas uma dupla não conseguiu achar nenhum dos elementos. “Eu penso que aqueles que tiveram algum problema em realizar as tarefas pedidas – que foram apenas dois – tenha sido mais por uma dificuldade com a língua portuguesa do que por desinteresse ou problema de aprendizado.”, eu escrevi no meu relatório.

Um dos integrantes desse grupo era um rapaz mais velho que prestava muita atenção na aula e anotava tudo, ele não desgrudava os olhos do quadro e de mim. Fiquei surpresa ao constatar a dificuldade dele, mas depois eu descobri o motivo. A língua portuguesa, é claro. O moço em questão é Coripaco, não fala Português e nem Baniwa. Tanto o Baniwa quanto o Coripaco são línguas do tronco Aruak, mas não são a mesma coisa. Dizer que um Coripaco fala Baniwa é o mesmo que dizer que um brasileiro fala Espanhol (apesar de ter um monte que pensa que fala hahaha). Aliás, os Coripacos vivem lá no Alto Içana, na fronteira com a Colômbia, muitos deles não falam Português, mas falam Espanhol, o que aparentemente é o caso desse aluno.

Parece inacreditável, mas há quem more em território brasileiro e não tenha como língua materna o Português. Antes de eu chegar aqui, não acreditava que isso era possível, não confiava muito quando lia nos textos que certos grupos indígenas ainda preservam a sua língua nativa e aprendem o Português como segundo idioma. Pois é verdade. Como expliquei num outro post, a Oficina de Comunicação foi destinada apenas aos alunos do Ensino Médio porque os professores me disseram que o Ensino Fundamental não teria nível de Português para acompanhar. No inicio me pareceu exagero, mas esses dias de convivência intensa em sala de aula proved me wrong.

O Português para os Baniwa não é língua nativa. Como eu mesma pude constatar nas comunidades que visitei, as crianças e as mulheres não escolarizadas não falam a língua nacional. De modo geral, os que aprendem o nosso idioma são aqueles que precisam intermediar as relações com o mundo branco, ou seja, os homens. E eles tem muitas dificuldades, assim como a gente tem quando tenta aprender Inglês, Francês ou qualquer outra língua.

Para vocês terem uma idéia, o ultimo dia de oficina seria dividido em duas partes. Na primeira, eu daria dicas de escritura e de Português. Na segunda, haveria um exercício de escritura. Pois as duvidas eram tantas que as dicas de escritura viraram aula de Português e tomou a manhã inteira, não deu tempo de botá-los para escrever! (Imaginem eu tentando dar aula de Português depois de quatro anos na França!)

Aqui, até mesmo os professores falam “a gente vamos” e “nós vai”. Mesmo o professor de Português, que não é Baniwa, é um Tukano e estava vindo para a aula com um manual das novas regras de Português embaixo do braço. Essa foi a minha primeira dica de escritura. A gente é singular, nós é plural. Pode-se falar a gente, mas na linguagem escrita é somente nós. A gente vai, nós vamos.

Segunda dica: nada de querer parecer chique e dizer “estaremos apresentando”. Na EIBC, toda semana tem uma avaliação das atividades da escola. Não é uma prova, é uma reunião onde cada professor, monitor e alunos escolhidos naquela semana para representar os alunos dizem os pontos positivos e negativos da semana que passou. Claro que cada um que chega lá na frente para falar começa com “Boa noite, eu estarei apresentando o meu relatório da semana para vocês agora”.

E aí foi indo. Depois de eu ter falado de a gente e nós, surgiu a duvida sobre o tu e você. O secretario Abílio contou que uma vez uma professora disse que tu era informal e você formal; que para falar com alguém de hierarquia superior, você usa você e da mesma hierarquia ou inferior, você pode usar tu. Quando dei por mim, estava lá eu dando aula de Francês para eles, língua na qual existe realmente uma grande diferença entre tu e vous, mas em Português isso não se aplica.

O professor e coordenador Alfredo Brazão me perguntou quando usar todo e quando usar tudo. E lá vou eu tentar achar uma explicação lógica para isso. Corri para o dicionário e para o livro de Português. Conclusão: tudo pode ser substituído por nada e todo por inteiro ou qualquer. Fala sério! Alguém já tinha parado para pensar nisso? Quando usar tudo e quando usar todo? Para a gente é simplesmente natural, mas para eles não. Nesta hora eu voltei a comparar a língua portuguesa com a francesa e lembrei d’eu logo que cheguei na França tentando desesperadamente entender quando usar tout e quando usar tous. Português e Frances não são tão diferentes after all.

Antes mesmo da oficina o secretario Abílio já tinha me perguntado a diferença entre pensamento e opinião, pois em Baniwa há uma só palavra para os dois conceitos. Isso foi durante a aula de Baniwa que ele esta dando para mim e para o João e agora para a Milena, que chegou na semana passada. Só para vocês saberem que eu vou chegar aí falando Baniwa.

De novo antes mesmo da oficina e agora mais ainda, eu conversava com os outros dois pesquisadores que estão aqui comigo sobre essa questão do Português aqui na escola. Para o João o aprendizado da língua nacional não é tão relevante, visto que eles são Baniwa. Para a Milena, esse era um assunto delicado a ser tratado com os professores. Pois surprise surprise! Na avaliação semanal realizada na noite do último dia de de oficina, o coordenador Alfredo disse que as aulas tinham sido muito produtivas para todos, que ele aprendeu muitas coisas novas e estava chateado porque nenhum dos assessores brancos da escola nunca tinham dito nada daquilo para os professores e os deixava falando errado (se referindo especificamente ao conteúdo daquele dia).

Nesta hora ele estava falando em Baniwa, mas eu estava sentada do lado do Abílio e pedi para ele traduzir quando ouvi as palavras “Isis”, “Português”, “assessores”. Lá vou eu comprar o Português com o Frances mais uma vez. Assim como os árabes não tem palavras novas e direto você escuta uma palavra ou expressão em Francês no meio do que eles estão falando, o Baniwa também não tem e faz a mesma coisa com o Português. Então eles estão lá falando algo que você não entende nada e de repente uma palavra em português salta aos seus ouvidos!

Vocês devem imaginar o tamanho da minha satisfação ao ver que o coordenador da escola estava muito grato por eu ter corrigido o “a gente vamos” e o “estarei apresentando” que ele falava em vez de ter se incomodado por ter sido consertado. O arremate final foi a indignação que eu senti emanando dele ao dizer que não entendia porque nunca ninguém tinha dito aquilo para eles antes. Ou seja, ninguém que quer realmente aprender fica ofendido por ser corrigido. Acho que a minha sugestão de mais aula de português no relatório da oficina não terá um efeito negativo, como imaginou a Milena.

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Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
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3 respostas para Mais aula de Português para alunos e professores da EIBC Pamaali

  1. Abilio Julio disse:

    Muito bem!!! Na verdade essa é nossa realidade. Ainda precisamos conhecer mais a língua portuguesa, porém, esperamos melhorar no futuro com ajuda de outras pessoas conhecedoras ou quem sabe, fazer auto-formação. Que na verdade foi dessa forma que começamos a construir a nossa escola, mesmo não tendo formação especifica, só que jamais pensamos em disistir, somos sempre abertos a aprender coisas novas. Com certeza, estamos no caminho de melhoria ” apenas 10 anos de vida” Imagina +10…

    • isisvalle disse:

      Pois é, Abilio, muita coisa aconteceu em 10 anos e muito mais vai acontecer nos próximos! Eu adorei poder retribuir as aulas de Baniwa com aulas de Português e conheço as dificuldades de aprender e usar uma língua nova. Aproveitem os pesquisadores que vão à escola, principalmente esse linguista que eu ouvi falar que vai pra lá na proxima etapa. Vai ser uma oportunidade de ouro ter um especialista em Português na escola! Grande abraço.

      • Abilio Julio disse:

        Com certeza vamos aproveitar muito!!!
        Durante uma semana de aula de comunicação/português aprendi muitas coisas novas, valeu apena ter participado das aulas. Agradeço especialmente você pela paciência que teve conosco…Vou continuar lendo os seus posts…Abração

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