Internet: entre a utopia democratizadora e o choque da realidade

Logo no início do meu contato com os professores da Escola Indígena Baniwa Coripaco Pamaali, eles perguntaram se eu prepararia alguma atividade para realizar com os alunos ou se eu só viria pesquisar. Eu respondi que pretendia ainda continuar trabalhando com a instituição futuramente, para a minha monografia de conclusão de curso na UnB e durante o meu doutorado. Ai então eu viria com alguma oficina preparada para fazer na escola. Nesta primeira visita, a minha intenção era somente conhecer a realidade da escola e dos índios para fazer a minha dissertação de mestrado e com base nisso poder elaborar esses futuros cursos.

Porém, as coisas nem sempre acontecem como a gente planeja. Desde a minha chegada aqui com o João, os professores demonstraram sempre o desejo de que nós dois não ficássemos apenas como observadores distantes, mas que participássemos das atividades da escola. Quando eles têm alguém de fora presente, eles querem fazer os alunos aproveitarem ao máximo a visita. Principalmente se se trata de um pesquisador que tem conhecimentos aos quais normalmente eles não tem acesso. Eu me rendi e fiz a tal atividade com os alunos, uma Oficina de Comunicação para o Ensino Médio. Felizmente eu não a tinha preparado com antecedência, como seria se eu tivesse planejado tudo.

A realidade que encontrei aqui foi muito diferente da que eu tinha imaginado a partir das minhas pesquisas e leituras em Brasília e em Paris. Eu esperava chegar e encontrar alunos bilíngües bem familiarizados com a informática e a internet e uma conexão GESAC lenta, mas que funcionasse relativamente bem e em vários computadores. Com base nesta expectativa, eu teria montado uma Oficina muito parecida com aquela realizada para as lideranças indígenas no ISA no final do mês passado. Seria um curso centrado na utilização das ferramentas disponíveis na internet, como o Google, o Google Scholar, o Google Docs, blogs, Facebook, Twitter, etc.

Tudo isso faz parte do nosso dia-a-dia na cidade, mas não quer dizer nada para a maioria dos alunos. Todos os estudantes deste ano vem de comunidades indígenas onde, quando se tem energia, ela é oriunda de geradores (que normalmente só funcionam algumas horas por dia, quando a noite cai), e não há internet. Mesmo que alguém na comunidade – normalmente um professor ou membro de alguma organização indígena – tenha um computador, eles não tem contato com essa tecnologia. A maioria dos jovens por aqui nunca usou um orelhão, uma máquina fotográfica, uma filmadora, um telefone celular e nem cogitam a possibilidade de ter um telefone em casa. A maior parte só tem acesso à computador aqui na escola mesmo. Quem sabe entrar na internet, só vai para ver e-mail, MSN, Orkut e fazer pesquisa no Google.

O Gesac na escola Pamaali atualmente funciona mal, quando funciona. É um problema de conexão que ninguém sabe exatamente qual é, e há a questão de falta de energia para alimentar o receptor, o roteador para a internet sem fio e os computadores. Cada professor tem um computador portátil que fica à disposição da escola, são dez ao todo, mas só é possível conectar um de cada vez por cabo. A energia vem de um gerador que funciona normalmente das 19h às 21h30 e de cinco placas solares instaladas ao lado da secretaria, onde fica o telecentro.

Uma placa solar é exclusiva para alimentar o aparelho de radiofonia, o principal modo de comunicação na região do Alto Rio Negro. As outras quatro alimentam todo o aparato do telecentro. As placas solares devem trabalhar conjuntamente com baterias para que a energia gerada possa ser concentrada e estocada afim de que aparelhos eletrônicos funcionem ao mesmo tempo. Novamente, temos uma bateria exclusiva para a radiofonia. O telecentro tem outras oito, mas apenas uma está sendo utilizada. O articulador externo e professor Juvêncio Cardoso me explicou que essas baterias foram trocadas no ano passado, mas estão faltando duas peças para que todas as baterias possam funcionar juntas.

A única bateria em funcionamento só da conta de alimentar o receptor do sinal da internet. Não é possível ligar o roteador sem fio e nem mesmo o computador ao mesmo tempo. A noite, quando o gerador é ligado, a internet não funciona mais. Ninguém sabe porque, mas, quando funciona, a conexão cai a partir de umas 17 horas e só volta no outro dia de manhã. Ou seja, de dia pode ser que tenha conexão, mas não tem energia, e de noite tem energia, mas não tem conexão. A solução é carregar os laptops com o gerador durante a noite para poder ter carga para (tentar) usar a internet durante o dia. Os professores, quando precisam, também carregam os computadores de dia com as placas solares e a bateria no telecentro, mas para isso é preciso desligar o receptor da internet, se não a bateria não agüenta.

De qualquer forma, o receptor da internet não fica ligado o dia inteiro. Visto que a conexão não funciona o tempo todo – além de lenta, ela fica indo e voltando o dia inteiro – os professores preferem economizar energia e só ligá-lo quando alguém vai tentar se conectar. Enquanto o receptor fica desligado, eles podem carregar seus computadores, se a carga da noite não foi suficiente para o trabalho diurno. Tanto a conexão internet, por satélite, quanto a energia por placas solares dependem das condições climáticas. Se o tempo está fechado ou, principalmente, se chove, já era.

Os professores usam bastante seus computadores para a gestão da escola e dos cursos ministrados. Eles dizem que quando o sinal estava bom e todas as baterias funcionavam, eles usavam bastante a internet também. Pelo o que eu tenho observado, a utilização da rede é bem limitada pelas questões técnicas descritas acima e por isso fica restrita a assuntos bem práticos como comunicação e troca de documentos com os colaboradores externos da escola. A dificuldade para conseguir se conectar e depois a lentidão para carregar as páginas são tamanhas que eles preferem não desperdiçar o tempo de conexão com diversão ou assuntos pessoais.

Em teoria, os alunos podem usar os computadores dos professores para acessar a internet, mas diante de tudo o que eu expliquei, isso acontece raramente, pelo menos nesta etapa. São somente os monitores (alunos colaboradores dos professores) que usam o computador no final do dia para burocracias, como a elaboração de relatórios de atividades.

O computador é eventualmente usado para diversão, principalmente para assistir vídeos. Porém estes precisam estar em DVD ou já no computador, pois carregar um vídeo com a conexão Gesac daqui é praticamente impossível. Quarta-feira é noite de filme, com um datashow um filme é projetado no exterior da secretaria na frente da qual o terreno é um pouco inclinado, fica um verdadeiro “cinèma en plein air”. Se estiver chovendo, a projeção ocorre dentro de uma sala. Os professores ficam procurando entre si quem trouxe um DVD de São Gabriel da Cachoeira ou tem um vídeo no computador para exibir. Perguntaram até para mim e para o João na primeira semana, mas nós só tínhamos coisas em inglês. Talvez eu dê para eles o filme do Michael Jackson, This is it, como tem muita musica e dança, o fato do filme não ser dublado não é tão importante.

Tudo isso, a gente só descobre quando consegue chegar até aqui. Em São Gabriel eu já estava ouvindo das pessoas que a conexão não estava funcionando direito na Pamaali, mas permanecia o discurso encantado da internet. Só subindo o rio e vendo a situação local é possível desconstruir essa utopia. E só a partir desta quebra de paradigmas é possível elaborar uma oficina que corresponda à realidade dessas pessoas.

Anúncios

Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
Esse post foi publicado em Português e marcado , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Internet: entre a utopia democratizadora e o choque da realidade

  1. Alejandra A. disse:

    Oi Isis:

    participo em uma Lista de Discusão chamada Superior Indígena, e recebi a seguinte mensagem, é um chamado de trabalho, para alguém que conheça a Educação Indigena…Como que me entusiasmei de mandar meu CV, estão solicitando 4 consultores…

    Educação Escolar Indígena
    O PNUD republicou edital para contratação de consultoria:
    http://www.pnud.org.br/recrutamento/arquivos/1305225999.pdf

    Objeto: Geral: Investigar a realidade educacional indígena, formulando uma análise crítica acerca de sua participação nas avaliações da Educação Básica vigentes, a saber: Saeb/ Prova Brasil, Provinha Brasil, Encceja e Enem, de forma a possibilitar a criação de subsídios para constituição de avaliações educacionais específicas para povos indígenas, em consonância com suas demandas. Específico: Pesquisar as realidades educacionais das escolas indígenas em quatro regiões pré-determinadas, apontando características e destacando especificidades de seus Projetos Político-pedagógicos.

    CVs devem ser enviados UNICAMENTE por e-mail para processo.seletivo@inep.gov.br até o dia 22.05.2011. No campo “Assunto‟ da mensagem deve constar o Código ”2011-005-01”, obrigatoriamente.

    Um abraço,
    Ricardo

  2. Henrique disse:

    Montar uma atividade didática requer duas coisas
    1º Objetivo geral (ligado ao contexto total da realidade e do que é aprendido) O que é desenvolvido de maneira geral com os alunos.

    2º Objetivo específico. (ligado direitamente à atividade) Como essa atividade vai ajudar a desenvolver as habilidades, ou conhecimentos propóstos aos alunos?

    Dá um trabalhinho. Pensa com carinho no que e como fazer.

    bjos.

  3. Guillaume Aubry disse:

    Infelizmente eu não entendo tudo, porque a tradução “Google Translate”não é muito bom, mas é interessante e eu espero que você esteja bem, porque o último post data de 16 de maio

    Tome cuidado,
    Guilherme.

  4. Pingback: Si l’internet ne marche pas, ça m’énerve, mais mon directeur de mémoire est content | VALLE ISIS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s