Dia das mães na comunidade Bela Vista

A Escola Indigena Baniwa Coripaco Pamáali ficou vazia neste final de semana. Alunos e professores saíram para comemorar o dia das mães em três comunidades vizinhas: Jandu-Cachoeira, Tucumã e Bela Vista. Nós deixamos a escola no sábado logo depois do almoço e voltamos só na segunda-feira de manhã. Eu fui para a comunidade Bela Vista, descendo o rio a uma hora da escola no bongo (o bongo é como a voadeira, mas a voadeira é de metal e o bongo de madeira, mais pesado e por isso, mais lento). A volta subindo o rio demorou duas horas.

Quando chegamos em Bela Vista, a comunidade também estava vazia! Todos os homens tinham saído para pescar e só ficaram mulheres e crianças. Nós tínhamos acabado de almoçar, mas mesmo assim nos receberam com mais comida. Tinha moquiado, que é uma espécie de peixe assado bem devagarzinho para que possa ser conservado por mais tempo, e muito mingau. O mingau indígena é basicamente aquela farinha amarela com água. As vezes eles esquentam e adicionam sal e outras eles fazem com o suco de alguma fruta, como o açaí.

A pescaria Baniwa é de noite, quando os peixes saem. Os homens só voltaram para a comunidade no domingo de manhã cedinho cheios de peixe. O almoço nesse dia foi no salão, com todos da comunidade. Cada mulher prepara uma coisa em sua casa para trazer. Tinha arroz com lingüiça, macarrão com peixe, muito moquiado, quinha-pira e caldeirada de peixe. A pescaria foi boa e os alunos se fartaram, pois aqui na escola eles comem basicamente arroz, macarrão e feijão com charque.

Além disso, é raro faltar beiju nas refeições. Porém o beiju indígena também é diferente do nosso, ele é grande, grosso, duro, seco e sem sal. As pessoas o molham no mingau ou no molho do peixe. O beiju para os índios seria como o pão para os franceses, o acompanhamento de tudo, não pode ficar sem!

Normalmente, toda a comunidade toma o mingau junto de manhã. O sino do mingau toca e quem quiser vai para o salão tomar. Isso é muito forte principalmente nas comunidades evangélicas. As mulheres sentam de um lado e os homens do outro. Eu não sabia e fui e sentei do lado do João, lá no meio dos homens no sábado à noite.

Além de peixe, teve muito açaí. No sábado, chegando em Bela Vista, encontramos com um grupo de mulheres num bongo recolhendo frutas na beira do rio. Nas comunidades, não tem maquininha para fazer aquele creme de açaí que conhecemos, é tudo na mão mesmo. Então eles preparam algo que eles chamam de vinho de açaí, que na verdade nada mais é do que um suco de açaí, mais ralo do que o açaí que comemos em Brasília.

No domingo à noite, eu estava com a família de uma aluna enquanto ela preparava o vinho de açaí. As frutinhas são colocadas num caldeirão no fogo com água para que a casca amoleça. Quando a casca – que é o que a gente come, um tiquinho de nada por frutinha – está amolecida, ela pega uma garrafa de vidro e fica socando aquelas frutas sentada no chão com o caldeirão entre as pernas para que a casca solte. Quando ela solta, usa-se uma peneira gigante para coar e deixar cair o suco numa bacia. Nessa bacia, ela adiciona mais água para render mais e dar para dividir para toda a comunidade.

Como eu estava lá na hora, eles me deram o primeiro creme que sai, só um pouquinho mais ralo do que aquele nosso, antes de colocar água. Me deram uma vasilha enorme, eles sempre querem agradar os visitantes! Mas ai eu peguei só uma caneca e dividi o resto. Eles comem o açaí assim: temperatura ambiente, pois não ha geladeira; sem açúcar, pois açúcar é artigo de luxo que vem da cidade; e com aquela farinha amarela.

Esse final de semana eu sobrevivi à base de beiju, açaí e barrinhas de cereal e de proteína. Ah! E arroz no almoço de domingo, eu tirei a carne de dentro. Ainda não contei para quase ninguém que não como carne (agora eles vão ficar sabendo porque o Ray vai ler isso). A minha intenção é que eles só percebam depois de bastante tempo que eu estiver aqui. Entanto eles não notarem, não vão pensar que eu não estou comendo nada porque sou vegetariana (o que é geralmente o caso). Se notarem bastante tempo depois, talvez seja mais fácil convencê-los que eu não estou passando fome. Para o índio o fato de não comer peixe é coisa de outro mundo. Eles acham MUITO estranho alguém ser vegetariano porque o peixe e a caça são a base da alimentação.

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Sobre isisvalle

New media journalist, digital inclusion researcher and nutritionist to be.
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8 respostas para Dia das mães na comunidade Bela Vista

  1. Thadeu Martins disse:

    Pelo que vi seu dia das mães foi legal,espero que vc esteja fotografando muito ai,para eu poder ver depois,fica em paz,milhões de beijos…..

  2. benjamimray disse:

    Legal o post, muito bom ler notícias de acontecimentos no Içana e da escola. Por enquanto só eu sabendo do segredo rsrs (risos). Abraços

  3. Edu Élleres disse:

    E viva as barrinhas então!!!
    Quero provar desse açaí uma hora dessas…
    Bjs, baby!

  4. Clarice Valle disse:

    Adaptação é a grande jogada.
    Pelas notícias, você é uma grande jogadora!
    Feliz por acompanhar suas peripécias!!!!!
    Beijão

  5. Isis disse:

    Prima, sério, tô com dó de você…. já se pesou? ja empelotou aí? hahahahaha

    Deve tá sendo lidar com a alimentação aí, mas to vendo que tá se adaptando!

    Beijos e boa sorte com os alimentos!

    • isisvalle disse:

      Você tah achanod né, que tem balança aqui, né!!!
      Eu trouxe um monte de comida de São Gabriel, além das barrinhas de cereal e proteina, e o almoço aqui sempre é arroz, macarrão e feijão. Agora que o macarrão acabou, arroz e feijão. Nem vai dar para emagrecer assim! hahaha
      E o anti-alérgico é o meu companheiro de quase todos os dias, além do repelente! Dos três branquelos que vieram, eu sou a menos destruida pelos mosquitos piuns! ha!

      Mas nada impede de a gente combinar um super jantar quando eu chegar aih! hahahaha

  6. Franklin disse:

    Agora tens açaí ao pé do açaizeiro. Ah! tem que aprender a escalar o pé de assaí para tirar os coquinhos. Pode usar a peia (uma atadura que prende nos dosi tornozelos) para facilitar a subida. Ah! ah! ah! Beijo

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